Um caso que merece atenção é o do médico Osvaldo Alves, de Mandaguari. Foi preso e torturado sem ter pertencido a nenhum partido clandestino – apenas por sua amizade com os comunistas.
A pensão de Osvaldo Alves foi autorizada pela portaria 954, do Ministério do Planejamento, publicada no Diário Oficial da União de 16 de junho de 2005. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça não informa o valor da pensão, informação somente concedida ao próprio interessado (!) ou ao seu advogado (!) por meio de requerimento formal. Somente as edições de 2007 do Diário Oficial estão disponíveis na internet. Alves foi beneficiado também por uma indenização concedida pelo governo do Paraná, de R$ 30 mil.
Ao contrário de muitos beneficiados com indenizações milionárias, Alves não ocupa cargo no governo. E tudo o que recebe, doa para sua obra assistencial - A Comunidade Social Cristã Beneficente. MANDAGUARI - Ele se refere a ela como “robusta”. É o máximo a que se permite sobre a pensão mensal que recebe da União como anistiado político, embora ressalve que nem sempre o dinheiro é suficiente para cobrir suas despesas. Suas, não: da Comunidade Social Cristã Beneficente, que fundou e preside, e para a qual – garante – destina, se não tudo, pelo menos 99% do que recebe, porque “minhas despesas são poucas, ínfimas: não bebo, não fumo, não tenho bens e vivo em permanente semi-jejum”.
Esse estoicismo, segundo ele, é fruto de um voto de pobreza que, por sua vez, é motivado por seu ideal de “reformulação sócio-político e econômico”, único meio capaz de “salvar a sociedade terrestre do caos, da miséria, da fome e da violência”, que tem como ponto de partida “a reforma do homem em si, do seu interior” e de chegada uma sociedade orientada pelos princípios cristãos e comunistas que, segundo ele, refletem a essência do ensinamento de Cristo.
INSTRUMENTO
A Comunidade Social Cristã Beneficente, com sede – e, por enquanto, nenhuma filial – em Mandaguari, cidade de 33 mil habitantes no Norte do Paraná, foi fundada em 1984 é o instrumento através do qual o médico Osvaldo Alves, fitoterapeuta convicto e irredutível, deu a largada em sua cruzada para a transformação radical do ordenamento terrestre, missão a que se atribuiu enquanto purgava dois anos de prisão durante o regime militar.
A entidade compõe-se de uma casa de alvenaria muito antiga e pintada de branco por dentro e por fora, que foi recebendo adendos aqui e ali, mais um pouco lá e outro acolá até se converter num labirinto de anexos, em alvenaria ou madeira, destinados a fins tão ecléticos quanto moradia, produção de medicamentos, consultas médicas, tratamento dentário, aulas de música, pintura e fotografia e depósito de roupas usadas destinadas a doações.
Apesar das ampliações, é insuficiente para atender a todas as atividades que a entidade promove. Um galpão e uma quadra de esportes foram alugados para permitir cursos de caratê e vôlei para crianças e adolescentes.
Alves dá atendimento médico e fornece medicamentos – todos produzidos por ele com base em plantas, verduras, legumes e frutas, num total de 180 denominações – na sede da comunidade, em alguns bairros de Mandaguari em dias determinados, às quintas-feiras na paróquia São Bonifácio, na vizinha Maringá, e duas vezes por mês, com despesas pagas por ele, em acampamentos do MST no Oeste do Paraná, que concentra os litígios de terra no Estado. Só cobra quando o cliente assume poder pagar. “O pessoal tem gostado dele”, afirma o padre José Aparecido de Miranda, da paróquia São Bonifácio.
QUEM É
Alves formou-se pela Universidade do Rio Grande do Sul em 1962, tem 72 anos e é natural de Araranguá (SC). Há muito tempo – 27 anos, de acordo com seus cálculos - trocou a alopatia pela fitoterapia. O atendimento odontológico é feito por dois dentistas voluntários, e Alves pretende, “assim que possível”, instalar mais um gabinete e contratar um dentista. O tratamento odontológico é exclusivo a pessoas carentes.
A ORIGEM
Na origem de tudo está a casa que abriga o atendimento social e de saúde comandado por Alves, que a percorre tateando as paredes devido a uma deficiência visual detectada há 15 anos e que se agrava dia a dia.
A residência, antes sua, agora da comunidade, era utilizada para as reuniões do Partido Comunista Brasileiro, a pedido de um amigo de Alves, Ildeu Manso Vieira, coordenador das atividades do partido no Norte do Paraná. “Nem comunista eu era, e cedi a casa apenas por amizade”.
Alves era proprietário do Hospital São Francisco – do qual acabaria sendo despejado por inadimplência -, cujo nome contradizia o pensamento do médico, que à época se considerava materialista. Materialismo, aliás, que o aproximou de Vieira por encontrar nele reciprocidade para sua descrença do mundo espiritual.
Os serviços de segurança detectaram a célula comunista, rastrearam a movimentação de seus integrantes e chegaram a Alves. Queriam saber, por intermédio dele, o paradeiro de Vieira e, para isso, utilizaram-se do meio mais eficiente de que dispunham durante o regime militar: a tortura.
TORTURA
“Fui levado para o quartel do Exército em Apucarana e torturado durante 12 horas, ininterruptamente”, lembra Alves. Ele se refere ao 30º. Batalhão de Infantaria Motorizada, então sob o comando do capitão Ismar Moura Romariz, que, segundo Alves, foi quem se apresentou em sua casa na noite de 11 de setembro de 1975 solicitando que prestasse um atendimento médico de urgência. Ele o seguiu sem saber que se converteria no paciente que, após a sessão de tortura, exigiria de fato um tratamento de emergência para manter-se vivo.
A tortura mais recorrente daquele seu primeiro encontro com o submundo do regime militar foi o choque elétrico, mas Alves diz que também foi submetido a afogamento e pau-de-arara. Encerrada a sessão de horror, seus torturadores procuraram atenuar as dores de Alves oferecendo-lhe, no cubículo de três metros quadrados em que foi trancafiado, um bife grelhado. “Vomitei ao ver a carne”, lembra-se o médico. “Eu sentia um forte cheiro de queimado, e o que exalava este cheiro era o meu corpo”, acrescenta.
Alves garante não ter revelado o paradeiro do líder comunista, mas o amigo foi apanhado alguns dias depois e, como o médico e os demais 66 prisioneiros da Operação Marumbi desencadeada pelos órgãos de segurança contra militantes da esquerda do Paraná na década de 1970 – o número inclui dois catarinenses -, cumpriu tabela em duas guarnições militares de Curitiba e, finalmente, no presido do Ahu, após ter sido julgado por um tribunal militar como “mentor” do PCB.
Alves dividiu, durante quatro meses, a cela com Vieira, já falecido. Ele não inclui a tortura física entre as agruras da prisão, apenas as psicológicas – entre elas, passeios intermináveis durante a madrugada e com os olhos vendados, durante os quais os militares insinuavam que iriam “desaparecer” com eles, que suas esposas – o que não era o caso de Alves, solteiro desde sempre, embora pai de uma menina – aproveitavam-se da ausência deles para se envolver sexualmente com outros homens etc.
A CONVERSÃO
A fase materialista de Alves terminou durante seu confinamento compulsório no Ahu, privação que, ao contrário do que pretendia o governo, puni-lo por ser comunista, o que não era, ainda o converteu ao espiritualismo e, em conseqüência disso, ao comunismo. Para aumentar o paradoxo, muitos dos companheiros de Alves, comunistas por convicção e militância, abandonaram definitivamente esta doutrina, sem, no entanto, abrir mão da indenização e/ou pensão paga pela União.
A conversão faz Alves lembrar-se com ternura de seus dias na prisão, de seus companheiros e também de seus algozes, pois, afirma, as privações e torturas transformaram-se em coadjuvantes valiosas de seu encontro com a espiritualidade. E como a espiritualidade pode não só combinar com o comunismo, doutrina essencialmente materialista, como considerá-lo a concretização de seus princípios?
Em “Plataforma do Partido Comunista Teocrático”, um dos 10 livros que Osvaldo publicou por conta própria – há outro tanto na fila de edição -, ele desfaz essa perplexidade ao afirmar que o comunismo “é o único sistema que se enquadra às leis de Deus e aos verdadeiros preceitos de Cristo”. Um desses preceitos e base da doutrina cristã, segundo ele, é o desprendimento, ilustrado pela parábola do jovem rico (Mateus 19:16), que é instigado por Cristo: “Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens, dá aos pobres e siga-me”. Por pregar a propriedade privada, que estimula o egoísmo, inimigo mortal da caridade, diz Alves, o capitalismo contraria frontalmente as leis divinas e, portanto, é a consumação terrena da rebelião liderada por Satanás...
A Comunidade Social Cristã Beneficente tem cinco funcionários remunerados e voluntários como Tânia Maria Gomes da Silva Bezzant, vice-presidente da entidade, a quem o médico considera seu braço direito e esquerdo, porque, entre outras atividades, é quem anota seus livros. Ela mora na comunidade, que dispõe de dois quartos na casa principal e outros nos anexos –, um deles ocupado por duas camas e outro sem nenhuma. É neste último que Alves dorme. E dorme no chão. Dorme só porque também fez voto de castidade. Reconhece que é difícil manter esse voto, porque “não vivo num mosteiro, mas em ambientes em que há mulheres, e mulheres bonitas”. Duas de suas funcionárias comprovam seu parecer. Mas quanto a isso, pelo menos a deficiência visual tem alguma serventia.
José Antonio Pedriali
Fonte: http://josepedriali.blogspot.com




